ORAÇÕES, CONVERSAS E EXERCÍCIOS
25/05/11
“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12).
Tocar uma família não é coisa fácil. Estamos acostumados a desenvolver a idéia de que sendo Deus poderoso e misericordioso, também o será quanto a nosso futuro cônjuge, tanto quanto o será em relação a nosso dia-a-dia em família.
Ah! Como gostaria que isso fosse verdade, aliás, casei-me sob essa abóbada de compreensão, mas bastaram alguns aninhos de casamento para que me visse como uma criança, filha de pais distraídos, ou seja, nu, descalço e absolutamente indefeso diante das demandas surpreendentes que a vida me impunha. Sentia-me como alguém que tomou um susto, ao ser surpreendido por um sujeito qualquer, bem sem graça, que nos assusta ao saltar em nossa frente repentinamente, escondido que estivesse atrás de uma pilastra no meio de nosso caminho que cruzávamos absolutamente distraídos e sem qualquer preocupação, certos de que era um caminho seguro e tranquilo.
Depois desses anos todos, ainda sou capaz de sentir a dor, surpresa e senso de traição quanto a tudo que me disseram e tudo que construí dentro de minha alma: “Deus proverá e será seu guia, já que está casando na igreja e com uma serva Sua”. Ainda sou capaz de enxergar meu sofrimento, miséria e solidão.
Pregador de desesperança? Acho que alguns me veem assim, me acham cavalheiro de desilusões, mas não aqueles que se identificam e compreendem o meu relato sincero e existencial. O que sou então? Acho que sou um pastor que se encoraja a fazer uma releitura, alguém que sai às ruas a dizer-lhes: Deus é bom e as suas misericórdias duram para sempre. Mas Ele também nos fez sua imagem e semelhança e nos disse “crescei e multiplicai-vos”, dando-nos clara mostra de sua expectativa de que desenvolvêssemos, pelo fruto de nossa inteligência e força, valores que Dele derivavam, que pudéssemos desempenhar nossas responsabilidades nesse exercício de construir a vida e administrar tudo aquilo que dela deriva, tal como a jóia preciosa da família.
Não acho que o Eterno nos deixe sozinhos nessa árdua e desafiadora tarefa de tocar uma família, mas também não acho que ele providencia tudo, como se tivéssemos eternamente um ou dois aninhos de idade.
Sei que você, como pai amoroso, presenteia seus filhos amados com brinquedos vários, mas também não tenho dúvidas de que você o orienta a guardá-los após o uso e até mesmo como brincar para que eles durem, mas não ficará ao lado deles todo o tempo, dando a eles essa natural e desejável responsabilidade, não é mesmo?
Orações, conversas e exercícios são valores fundantes para alcançarmos um lar feliz e indestrutível. É claro que ser crente fiel ao Senhor, dedicadíssimo servo de Jesus Cristo, é algo muito valioso e importante. Mas sinto em oferecer minha conclusão de que não é o bastante para se ter uma família feliz, tanto quanto não é bastante comprarmos um belo carro e o deixarmos na garagem; é preciso aprender a dirigir, é preciso fazer manutenção periódica do carro, é preciso inteirar-se quanto a suas características. Portanto, não adianta andar com a nota fiscal dizendo a todos que você comprou um carro novo. Não adianta! Mas, é verdade, você tem um carro novo.
Orações, conversas e exercícios devem ser valores cotidianos, presentes na vida diária. Não é natural, nem saudável e tampouco agradável ao Senhor ser uma família abençoadora, capaz de ajudar a tantos e encontrar-se em solidão e falência. Temos que ter todo cuidado, pois por mais incrível que possa parecer, minha experiência pastoral mostra que isso é possível sim.
Portanto, chamo sua atenção para esses três ambientes que devem ser constantemente visitados pela família cristã: orações, conversas e exercícios.
Revitalização – Caminho para o Crescimento Saudável
Seu pastor,
Rev. Marcos Amaral
PELO QUE LUTAMOS?
22/05/11
“Perguntaram os príncipes dos filisteus: Que fazem aqui estes hebreus?” (I Samuel 29 e 30).
Todos sabiam, os filisteus eram os verdadeiros inimigos. Davi tornou-se notável exatamente por tê-los vencido aos milhares, matando, inclusive, o seu grande campeão, o gigante Golias. Mas chegou um momento da vida em que as conveniências tornaram-se mais interessantes do que sua própria ética. Davi violentou certamente muitos dos seus princípios quando decidiu marchar em batalha ao lado dos filisteus, em Afeque. Do outro lado, junto à fonte de Jezreel, estavam seus adversários, os israelitas.
Por mais que as conveniências dos fatos expliquem, parece injustificável que o futuro rei de Israel perfilasse ao lado dos seus adversários históricos para guerrear contra seu próprio povo. Mas foi isso que aconteceu. Não fosse a rejeição dos príncipes filisteus ao apoio de Davi, o pequeno pastor teria subido ao trono com as mãos cheias de sangue hebreu.
Devemos ter, sem dúvida, uma ligação antropológica muito forte com Davi. Será que, em algum momento de sua história, ele poderia prever que um dia seria aliado de um filisteu?
Assim como Davi, nem um louco seria capaz de afirmar que o trabalho é mais importante que a família. Ninguém admitiria conscientemente que seus filhos e o cônjuge são menos importantes do que os amigos, ou do que seu carro, ou mesmo do que sua casa. Todos, sem excessão, reconhecem que o segredo de ter uma família abençoada é dedicar tempo, cuidado e afeto sem medida. Mas porque fazem exatamente o contrário?
Será que herdamos do herói da fé também as suas contradições? Quando a vida nos pressiona, quando o futuro passa a nos assustar, quando as cobranças e as expectativas da sociedade nos exigem respostas, desempenho e resultados, relativizamos tudo, atropelamos a ética, negociamos nossos valores, violamos nossos princípios. E tudo absolutamente amparado e respaldado por alvos e motivações aparentemente justas e necessárias, mas que são, na realidade, a profanação de todo sagrado que faz nossa existência relevante; a inversão das nossas prioridades mais essenciais.
O trabalho, outrora um meio a serviço do bem-estar da família, tornou-se senhor do nosso tempo; fez-nos escravos dos objetivos de outrem. Bens e valores, adquiridos para o prazer e conforto, tornaram-se a razão das nossas discórdias. Diplomas conquistados com muito suor e celebrados por todos, abriram as mesmas portas que depois fechamos, deixando do lado de fora todos os que se sacrificaram pelo nosso sonho.
Nosso medo, misturado às nossas ambições, transformaram amigos em inimigos e inimigos em amigos. E assim, como Davi, fizemos aliança com filisteus e guerra com hebreus. Que louca contradição!
Retirado da batalha – pois nem os próprios filisteus entendiam o que os hebreus faziam ali – Davi voltou para casa e, para seu desespero, descobriu que enquanto lutava suas guerras pessoais, havia deixado, mercê da sorte, aquilo que, a todo tempo, deveria ser o bem mais precioso a ser protegido: sua família.
“Quando Davi e seus homens chegaram à cidade, encontraram-na queimada a fogo, e suas mulheres, seus filhos e suas filhas, levados cativos” (cap. 30 verso 3).
Pensemos nisso. Enquanto nos ocupamos com nossas guerras inúteis, quem tem lutado pela nossa família?
Em Cristo, aquele que guarda a cidade onde haja uma sentinela alerta.

