“Então, veio o SENHOR, e ali esteve, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel! Este respondeu: Fala, porque o teu servo ouve” (1 Sm 3.1-18).

Eli, depois de muitos anos de serviço ao Senhor, e que um dia por certo teve seu coração aquecido como o de John Wesley, sucumbiu a seus desejos, acabou distraindo-se consigo mesmo, fragilizou-se no corre-corre da vida, a ponto de negociar o inegociável. Enveredou-se pelo amor desmedido por seus próprios filhos, a ponto de fazê-los seu objeto de adoração, colocando-os no lugar de Deus.

Um dia, diante de Eli estava o menino Samuel, que fora consagrado de forma emocionante por sua própria mãe muitos anos atrás, que sacrificialmente o oferecera a serviço do Eterno. Elias, depois de ouvir de Samuel que, recolhido em seu quarto, ouvira uma voz que se repetira por três vezes chamando-o pelo nome, entendeu que era o Senhor que vocacionava o jovem profetinha, diante do que orientou: “É o Senhor! Se Ele novamente o chamar diga: Fala, porque teu servo ouve”.

Assisto a vida além de participar dela há pouco mais de 50 anos e concluo que são muitos sons, muitas esquinas, inumeráveis possibilidades, equívocos incontáveis, sonhos realizados mais do que frustrados, sol, chuva, precipitações tantas, partidas que causam lágrimas, mas também sorrisos gargalhantes.

Acho que Eli arrependeu-se amargamente pelos atalhos tomados, pelas paixões temporais, pelo brilho nos olhos alimentados pelas vaidades vãs. Acho que relembrou seus tempos de profetinha, quando, apaixonado por Deus, era capaz de subir as montanhas mais íngremes, voar aos céus mais longínquos, enfrentar os mares mais aterradores. Tudo isso em nome Daquele que o vocacionara, que fora capaz de encher seu coração de amor, que o norteara dando sentido inabalável à sua existência.

Ao olhar Samuel, vira a si mesmo. Vira o quanto se desviara do amor primeiro. Pôde tocar seu próprio coração e perceber o quanto estava triste e sombrio, desfalecido pelo pecado, que como sereno da madrugada insiste em ser sorrateiro e constante.

Sabe o velho profeta que só há um caminho capaz de estabilizar a existência. Só há uma voz que, ao ser obedecida, clarifica os olhos turvados pelo natural medo das tantas encruzilhadas em que teimam os nossos pés estarem.  Só um que no meio de tantos nos salva da destruição da alma, ao qual devemos de fato e com todo vigor temer.

Eli instrui Samuel, como alguém que um dia deixou de ouvir os dóceis e justos juízos. Sabe o velho profeta que Deus é rigoroso, como todo soberano, mas é igualmente compassivo, absolutamente bondoso, e, portanto, lhe dá um de seus últimos conselhos: “Se Ele o chamar novamente diga tão somente, sem vacilar uma mínima fração de tempo: fala, porque teu Servo ouve”.

Daqui de dentro desta madrugada fria eu rogo a Deus que me afaste das distrações que foram capazes de capitular o coração do velho profeta, e que mantenha em minha alma a chama acesa, a ponto de me alegrar e correr para os braços do Eterno com um sorriso de criança toda vez que ele me chamar, diante do que Ele não ouça outra coisa que não: Fala, porque teu servo ouve!

Revitalização – caminho para o crescimento saudável

Seu pastor,

Rev. Marcos Amaral